Um conto: Da inteireza dos restos.

 
foto: Eugênia Gabriela Sousa e Silva

foto: Eugênia Gabriela Sousa e Silva

 

Um conto de Monyse Almeida.

Vovó era mulher de fibra, não era malha fajuta. Ela dizia que lá pelos idos de 70, quando as coisas apertaram - feito ajuste exagerado de vestido -, ela não pensou duas vezes, foi logo desempacotando umas caixas e colocando a plaquinha no portão rubro: COSTUREIRA AQUI. 

Mas foi barra. Os anos eram de chumbo. Não sei o que o vôzinho demorou mais para aceitar:  o regime ou a plaquinha. Não sei não. Acho que ele nunca aceitou nenhum dos dois até hoje, onde quer que ele esteja.

Pela frestinha da porta eu espiava tudo. Nunca vi outra igual. Batia o olho e vovó já sabia o busto, a cintura e o quadril da Dona Dinorá, fez o vestido de noiva da filha da Dona Maria das Graças, a Dona Ivone, minha avó a transformou em uma verdadeira baiana, os carnavais nunca foram os mesmos pra ela. Vovó ainda fez o paletó do defunto que morava ali na esquina também. Eu não fui, mas disseram que lá no enterro não se falava em outra coisa, eram só elogios para o corte. 

Não era vaidosa com toda a rasgação de seda que começaram a se dirigir a ela. Até a esposa do prefeito bateu palma em frente ao portão para falar com a melhor costureira da cidade. Para desespero do meu avô. “O quê? Ela quer um vestido de festa? Vai usar em algum banquete dos milicos”. E saia resmugando e rabugento “a que ponto esse país chegou?”. 

Eu era louca para aprender a mexer naquela máquina, transcorrer a linha e fechar uma linda saia de veludo azul marinho. Mas na minha caixinha de coleções de sobras, eu só tinha duas tirinhas desse aí, não conseguia fechar nem um dedal, imagine uma saia até o pé. 

Nas minhas brincadeirices, era um amor só.

Os veludos azuis amavam a chita da baiana que amava as sobras tortas do paletó do defunto. 
que amava as rendas do véu que amava o calção de praia que amava a seda inglesa da primeira dama. Que não amava ninguém.
As rendas viraram carolas da paróquia, a seda inglesa foi para a rua da luz vermelha. 
As sobras tortas foram carcomidas, o calção de praia nunca viu a praia. 
A chita da baiana rasgou e os veludos azuis casaram com as jutas bege das sacas de arroz do mercadão. Que não tinham entrado na história.

 

Vovó falava que não, não e não. Menina bonita não senta pra costurar. Que eu tinha que continuar brincando, lendo umas lobatices. Na verdade ela tinha é medo, ela sabia que se eu sentasse em frente àquela máquina de costura, eu nunca mais ia querer sair dali. 

Teve um dia que eu insisti tanto, mais tanto, mas ela continuou firme. Não, não e não. Fui chorar lá em cima da jabuticabeira e não tinha gente neste mundo que me tiraria de lá. Eu pensei que poderia morar lá em cima, que comida não ia faltar, que o xixi estava garantido lá do alto e que os passarinhos iam ser a minha companhia. 

Vovó nem deu pano pra manga para essa minha fase jabuticabal, sabia que mais cedo ou mais tarde eu ia cair de podre. Eu devo ter ficado lá em cima uns 237 dias, mas meu vô disse que eu só fiquei 3 horas. Acho que ele não conhece mais o calendário, tadinho. Deve ter lido tantos livros proibidos que ele se esqueceu que não temos mais trididi, quartidi e brumários. 

Desci arrasada. Os passarinhos não queriam ser meus amigos, eles nem perceberam que eu estava lá na verdade. As jabuticabas lá de cima eram mais azedas e meu xixi acabou saindo na calça quando eu fiquei com medo de um pássaro preto de bico pontudo. 

Quando desci da jabuticabeira, vovó tava com aquela cara de quem dormiu de calça jeans, sabe? “Você para de ficar inventando moda, menina! Não é pra ficar vivendo só de jabuticaba”. 

Ela não entendeu que eu queria viver de mais. De jabuticaba, de livros legais e de costura. Uma cachoeira começou a despencar do meu olho, fiz um bico do tamanho do pássaro preto e fui direto para a minha escuridão debaixo do meu travesseiro. 

Depois de 32 dias, 10 minutos para o meu vô, quando a queda d’água começou a se sertanizar, fui aos poucos deixando entrar uma frestinha de luz e depois outra e outra. De repente, levei um susto, o maior de todos da minha vidinha, parecia que todas as agulhas do mundo tinham entrado em meu coração. Minha coleção de sobras tinha desaparecido. DE-SA-PA-RE-CI-DO. Será que foram as rendas carolas que se rebelaram? Ou o calção de praia que juntou um comboio e desceu a serra para finalmente pegar uma maresia? Não, não. Só pode ter sido as jutas beges firmes e fortes que organizaram e decidiram se rebelar contra uma amante de jabuticabas que não conseguia sustentar as suas ideias. 

Parecia que outra cachoeira estava prestes a despencar cara abaixo quando vejo de rabo de olho esquerdo, algo diferente. Toda colorida, com um sorriso no rosto e uma saia de veludo azul marinho. 

Era uma boneca linda. Ela foi feita com as minhas sobras, com as minhas histórias, com os meus personagens e ficou a boneca mais retalhada e maravilhosa que eu já vi na vida. Alegre como uma baiana em dia de festa, bom vivante como uma primeira dama, relaxada como quem deita em paz para uma soneca eterna e realizada como quem tem a certeza de que está casando com a pessoa que mais ama nesta vida. 

Fui correndo dar um abraço bem apertado na minha vó e agradecer. Foi cachoeira pra todos os lados. Obrigada por juntar os meus pedacinhos, vó. Hoje sou inteira.  

Inspiração no poema “Apanhador de desperdícios” de Manuel de Barros. 
Publicado em “Amo os restos como as boas moscas”, textos de autores da Oficina de Escrita Criativa do Centro Cultural São Paulo.  

-- Texto escrito pela Monyse Almeida, que já participou da coluna Contos de Re-Roupa do blog, quando contamos a sua história participando de uma das nossas oficinas. Dessa vez ela nos presenteou com um conto lindo sobre os restos. ♥